O pesadelo de Katrina
Mood:
sad
O sonho americano tambem tem despertares dolorosos. Pela primeira vez, pelo menos desde que aqui estou, a America tem que enfrentar a dura realidade das suas falhas. O furac?o Katrina acordou para as duras penas da realidade este mundo de fantasia em que o americano medio vive e as industrias que o sustentam o querem.
A evidente falencia do voluntarismo da administrac?o (leia-se do presidente e seus acolitos) deixou o pais em estado de choque. Os precos da gasolina, ja altos para o que o americano estava habituado, dispararam acima dos $3/gal?o quando se percebeu a extens?o dos estragos em New Orleans. Mas o que esta a trazer as pessoas de volta a realidade s?o as imagens de terceiro mundo numa das metropoles mais carismaticas do pais. A cidade debaixo de agua, o estadio dos Saints desfeito, com cenas de filme de horror nos corredores escuros, as pessoas apilhadas dias a fio nos telhados, as pilhagens, os ataques as equipas de socorro, as noticias de assaltos, assassinatos e violac?es, a faltade agua e comida, as ameacas de doenca e animais solta, tudo denuncia as deficiencias estruturais daquela cidade, que a America ignorava.
Conhecendo New Orleans, percebe-se um pouco melhor. A cidade esta construida abaixo do nivel do mar. Um sistema de diques mantem a cidade estanque. Foram esses diques que rebentaram e permitiram a inundac?o. New Orleans e um destino turistico popularizado pelo carnaval (Marti Gras), cuja iconica imagem s?o as mulheres jovens (universitarias, brancas, classe media) que mostram os seios em troca de colares coloridos, que depois valem bebidas nos bares do quarteir?o frances. Girls Gone Wild! Mas a realidade da populac?o e bem diferente. Num estado do sul, com maioria negra, mais de 100,000 pessoas tem rendimento abaixo do nivel de pobreza, a cidade vive com infraestruturas velhas, emprego precario, problemas de poluic?o. Acrescente-se a tudo isto a atmosfera romantica, os mesticos descendentes de franceses, o culto dos mortos e do vudoo. Em suma, onde Vegas tem o luxo de Roma, NY o perfume de Atenas e a Florida o charme de Cinderela, New Orleans parece-se com Sodoma e Gamorra.
N?o tenho a certeza se fora daqui ja se tornou patente ou sequer se suspeita a dimens?o da tragedia. Mas mais do que as consequencias economicas, a verdadeira tragedia e moral.
Vou arriscar prever que o furac?o Katrina e o Watergate de Bush. N?o mais o presidente vai poder falar sobre manter a America segura ao lutar contra o terrorismo. A retorica dos republicanos tem sido martelada a exaust?o: tudo de mal que se passa aqui tem origem externa. A guerra e necessaria para nos manter seguros. A economia esta em grande, as dificuldade s?o culpa dos chineses. Os americanos podem dormir descansados, porque desde que este presidente tomou conta, nunca mais fomos atacados. ( O 11 de Setembro ainda foi culpa do Clinton!)
Pois bem, o mito acabou. Suspeita-se agora que o Katrina tenha morto mais pessoas que o ataque a NY. A administrac?o esta no poder, com controlo do Congresso e do Senado, a mais de 4 anos. O presidente estava de ferias (activas!) ha 5 semanas. Passeou-se por 3 bases militares para falar da nova constituic?o iraquiana dois dias DEPOIS do furac?o atingir New Orleans. Demorou 5 dias a mandar as tropas (apenas no dia em que foi visitar o local). Os factos s?o irrefutaveis. Estes marmelos n?o estavam preparados, mesmo tendo sido avisados: o Weather Channel funciona 24 horas ao dia e estava a falar nisto ha duas semanas.
A incompetencia da administrac?o, os compadrios, a corrupc?o s?o patentes. Os directores dos servicos de emergencia s?o amigos pessoais do presidente, a quem n?o se conhece experiencia ou autoridade para gerir esses servicos. A Halliburton ja tem contractos para reconstruir a cidade. As tropas, necessarias para remediar os danos (especialmente a Guarda Nacional, que e essencialmente uma forca de protecc?o territorial) est?o amarradas no Iraque. Pedidos de ajuda previos foram ignorados. A reacc?o ao impacto do furac?o foi atrasada e diminuta. As palavras de conforto soam a falso. Comeca-se a suspeitar que se isto tivesse acontecido numa area com maioria de populac?o branca e afluente, como no ano passado na Florida, o presidente teria sido mais celere a enviar ajuda e apoio. Ao inves, New Orleans e pobre e negra.
Mas tudo isto s?o considerac?es algo futeis nesta altura. A emergencia e salvar quem pode ser salvo. O ajuste de contas vira depois. Como dizia Churchill, pode-se enganar toda a gente durante algum tempo; pode-se enganar algumas pessoas sempre; n?o se pode enganar toda a gente para sempre. Pela primeira vez em muitos anos, a imprensa comeca a fazer perguntar dificeis e a n?o se contentar com as respostas enlatadas. Aqui diz-se que comecam a por os pes da administrac?o no fogo.
Sera que com o pesadelo de Katrina comecou o churrasco de Bush?
Posted by sergioloureiro1
at 1:11 AM MDT
Updated: Saturday, 3 September 2005 1:12 AM MDT